terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Tempo Serpente



Os anos comeram os lóbulos das minhas orelhas e se insinuaram em minhas têmporas, polvilhando um inverno rigoroso nos cabelos antes negros. O tempo que serpenteou as curvas e arestas de meu corpo tornou-o estranho aos toques: ao meu próprio e aos alheios (daqueles que porventura me amaram ou que me tiveram apenas na carne viva). Todo físico que eu habitei reconheci como meu apenas ao abandoná-lo, ainda que sempre levasse a certeza de ter por morada um peito exasperado, de respirar sem compasso, palmas de mãos já traçadas, pernas rijas e enormes pés que procuram se enterrar num chão qualquer e adormecer raiz. A forma que me guarda envelhece primeiramente pelas pontas, é por elas que um deus irreversível me alcança e corrói. Com paciência e apuro vai deixando minha face talhada nas expressões que vida afora eu repeti, e por essas marcas, no final de tudo, me reconhecerá. Impassivelmente ele me aguarda, me espera com indiferença, e se sobre todo o meu corpo trabalha, somente nos olhos é que descansa.