
Os anos comeram os lóbulos das minhas orelhas e se insinuaram em minhas têmporas, polvilhando um inverno rigoroso nos cabelos antes negros. O tempo que serpenteou as curvas e arestas de meu corpo tornou-o estranho aos toques: ao meu próprio e aos alheios (daqueles que porventura me amaram ou que me tiveram apenas na carne viva). Todo físico que eu habitei reconheci como meu apenas ao abandoná-lo, ainda que sempre levasse a certeza de ter por morada um peito exasperado, de respirar sem compasso, palmas de mãos já traçadas, pernas rijas e enormes pés que procuram se enterrar num chão qualquer e adormecer raiz. A forma que me guarda envelhece primeiramente pelas pontas, é por elas que um deus irreversível me alcança e corrói. Com paciência e apuro vai deixando minha face talhada nas expressões que vida afora eu repeti, e por essas marcas, no final de tudo, me reconhecerá. Impassivelmente ele me aguarda, me espera com indiferença, e se sobre todo o meu corpo trabalha, somente nos olhos é que descansa.
3 comentários:
Depois de dois meses um pequeno texto desses dias ilhado em Ipitanga.
Nunca mais tive notícias suas! Que bom que me encontrou no meu canto!
Abração
Não acabaram as férias ainda?Bora!Ao trabalho!Conto novo logo!!!
SAudade!
bjos
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