segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Pra dizer adeus


Dia de dezembro, chuvoso e de céu convidativo.
Meu Caro,

Ao abrir esta garrafa, haverá ainda um sufoco em nossos peitos: a mesma absurda liberdade que te permitiu ir embora, alçar vôo rasante e por fim, sucumbir. Deparando com esses escritos, haja também nos seus lábios todas as antigas insinuações de quando me furtava mais um texto de debaixo do travesseiro. Então, abre, lê, ri ou chora, mas toma conhecimento de seu espaço antes ocupado, hoje lacuna, com tanta ou mais presença física do que seu corpo magro, seus poros abertos ao extremo.


Revelo-te tudo o mais que ficou porque minha alma, íntima da sua, sabe que no exato momento em que se atirava de tão alto contra os rochedos, seu último desejo foi o de poder conhecer e lamentar a própria ausência.


Pois bem, choveu durante todo aquele dia, mas uma chuva rala, quase imperceptível. E, sim, velaram seu corpo entre lágrimas e espanto. É que ninguém ali entendia sua escolha como apenas mais uma num vasto leque. Porém, eu em nenhum momento questionei sua opção, apenas senti muito por mim, por você, pelo mundo. Lamentei nossas leituras jovens e líricas. Voltássemos no tempo, eu investia em filosofia, apresentava-te um milagre!


Acredite, por sua saída de cena aos 18 anos não carrego culpa alguma; arrependo-me de poucas coisas. Então, desculpa-me apenas por utilizar sempre da meia-luz, por te emprestar aqueles livros de Byron, Álvares de Azevedo, Clarice, e mais ainda por cultivar entre nós mistério e silêncio.


E sinto informar-te: o mundo continua. Seus pais, amigos e eu continuamos.


Não te tenho como um puto egoísta porque acredito ainda que você não sabia ou que naquele momento tinha esquecido que não existimos por nós mesmo, mas apenas para outros. Para mim, principalmente. Foste minha melhor medida, e caso vivesse, te leria os existencialistas antes de velar seu sono e seus pesadelos, te imporia mesmo uma culpa prévia, recitaria tua posse, soletraria meu corpo, cobraria sua cota de responsabilidade comigo, te mostraria a mim como pequeno objeto em suas mãos.


Sim, fui objeto, e essa carta, pretendendo falar a ti, é quase toda sobre mim. Claro, você entende. Somos ainda parecidos nisso: no sarcasmo, no narcisismo. Essa é também uma resposta, tempos depois, da sua despedida, do e-mail enviado horas antes. No adeus, como sempre, foste moderno!


Pois saiba tudo de uma só vez: sua mãe chorou tempos e tempos, até secar por dentro e continuar a se dedicar ao jardim de frente a casa, buscando vida na terra. Do seu pai, já é visível, você roubou boa soma de anos, dos amigos ganhou uns lamentos e umas poucas recordações, e de mim arrancou a própria dimensão de SER.


Eu, objeto, hoje sem utilidade, procurando pelo que existir.


Se era na sua retina que podia entrar em contato com minha imagem refletida, se era no seu sexo que transcendia a nós e encontrava Deus, se era só através de você que eu sabia de mim, dize-me, agora, quem sou eu?


Lembra ainda que éramos jovens, o mundo, uma promessa. Saiba também que o meu sexo, no qual te regozijavas, era só o início. Das minhas entranhas arranco essa força que um dia foi sua, que fez de nós essência sui generis. Por último, deixa eu te falar de uma teoria que andei descobrindo por aqui, nesse lugar de fortes!


Eu sou um milagre! Isso mesmo, meu caro. Se somos aqueles que vêm ao mundo com a capacidade, mínima que seja, de operar uma mudança e quebrar um ciclo de ações automatizadas, se somos o novo, o frescor, a possibilidade infinitamente improvável, é porque somos milagres. E você abdicou de sua parte nele! Mas perdôo-te por isso. O que não posso perdoar nem esquecer é sua falta de responsabilidade. Não sabias também que todo ato teu é um ato universal? Sim, pois se você pôde assim agir, se pôde fugir, é porque também outros poderão. Também outros se vêem com essa possibilidade.


Você ter colocado tal alternativa tão próxima de mim, ter-me feito entrar em contato com mais uma possibilidade, essa liberdade que me consome as noites, isso, meu caro, é imperdoável!


Mas deixei de ser poeta e hoje sou filósofo. Surpreender-te-ias comigo hoje, com as lágrimas presas, com a razão sempre desperta. Cumpro o que prometi: saiba de tua ausência, saiba de mim! Sou fundamento de e objeto para outros. Aliás, me diluo na multidão, me perco, sou eu mesmo um outro! Então, decora isso: nunca iremos nos pertencer.


Eu sou um milagre!

Último Adeus,

Teu mais caro e precioso objeto.

3 comentários:

Um catador disse...

Esse texto veio pra cá pelo momento de retomada e superação. Ele data de 2004, eu tinha 18 anos, e foi feito com a primeira frase "Quando abrir esta garrafa..." fornecida por Hebert Valois, como um exercício que fazia parte de um projeto em que algumas pessoas, a pedido dele, deveriam escrever cartas. Bem, de lá pra cá foram alguns anos e um bom caminho. Num ponto do texto ele deixa entrever um certo abandono da sensibilidade em detrimento da razão. E era justamente o que eu, o escritor, não o personagem, estava fazendo à época, mergulhado em tantas leituras: filosofia, história, sociologia etc. Então ele veio pra cá pra atestar esse novo momento, em que reconheço minha sensibilidade como o melhor em mim e coloco a razão à serviço dela. Abs a todos!

Victor Longo disse...

Simplesmente indescritível. Já sabia que você era inteligente, mas não tanto!

Marina Sabino disse...

Rafaa, ainda bem que eu guardei aqueles seus contos da 8 série que vc tanto odeia e eu vira e mexe leio... Como ja falei, vou mostra-los a vc novamente, só pra vc ver o TANTO que vc melhorou, mas nunca mudou a linha que seus versos seguem... assim, sozinhos... automáticos...
Adorei.