domingo, 26 de outubro de 2008

Latejando


Poucas vezes ela sai de casa e ousa enfrentar a si mesma na multidão, entre tantos corpos passantes, entre tantas almas caídas no chão, nas valas ou becos. Há dias, porém, em que se prepara com esmero para escancarar a porta da rua. Por esse tempo, intencionalmente, ela põe nos olhos tanta sombra e lápis preto que se perde no escuro, e em sua penteadeira carrega na maquiagem, desenhando na boca um coração borrado. Minhador tem fascínio pela cor vermelha!

Procedendo sempre da mesma forma, Minhador arruma-se, penteia-se, veste-se, deixando partes à mostra, outras escondendo com o máximo esforço. É apaixonada por saltos altos, almejando ver de cima os caminhos para, sabe-se lá por quê, atravessar descalça os mais difíceis, pisando todo tipo de merda. Desde a infância fez dessa sua principal função no mundo, a de se travestir em beleza.

E assim disfarçada, ela se aventura por algumas esquinas, topando com gente de todos os tipos e tempos, tendo, contudo, predileção por crianças e velhos, justamente por não saber lidar com o meio de caminho. As primeiras lhe assombravam pelas possibilidades; os últimos por atestarem sobrevivência. Nessa mesma lógica, tinha uma estranha saudade de tudo que houve antes dela e do que viria depois, dos que morreriam sem tê-la conhecido.

Coisas tão íntimas, é óbvio, não contava assim pra qualquer um, confessando-se apenas em banheiros públicos. Acostumada à solidão, ela dispensa ajudas e companhias, não por orgulho, mas por silêncio resignado. Claro está que ama um homem, justamente aquele que a cultiva como a maior, a mais fiel das amigas. E não se enganem! Minhador é uma puta barata, dessas de rua, que se dá a qualquer um em troca de.

Quando sai para dar esses passeios inesperados e espontâneos, chega nos lugares abruptamente, mas só a lentos passos se afasta. Deixa marcas sempre! É que Minhador se criou assim: egocêntrica e silenciosa. Mas há esses dias! Dias em que põe banco em praça pública, sobe e, com as mãos na cintura, desata a gritar.

3 comentários:

Luise disse...

Só quem já latejou entenderá o significado do silêncio resignado.
E nada como a poesia para um bom grito nos dias de batom vermelho...
Parabéns.

BIa disse...

Tenho sentido falta de ler suas palavras bonitas!

:)

Cainã Monteiro disse...

Minhador também tirou a virgindade de Marina Lima?
huuahuiahauihaui
Tô brincando.

Passei aqui para ler o que vc anda escrevendo. Gostei bastante.

Beijos.