
João vinha à frente como de costume, as pernas pressionando as costelas do animal em dor. Maria, por sua vez, logo atrás do irmão, agarrava-se a esse com gosto e, enquanto se esforçava pra não cair, pensava na melhor maneira de derrubá-lo sem, contudo, perder a montaria.
Vinham ambos muito felizes, com o contentamento que só algumas crianças conheceram. Sobre suas cabeças caíam os flocos de neve que a todo o momento lhes lembrava: quase lá. Pólo norte, o deserto em gelo, todo aquele excesso de branco em volta, o preto e vermelho apenas nas cocas-colas com que se embriagavam os ursos polares. João pensava em como engabelar a irmã mais nova na hora de dividir os espólios e a cada possibilidade fincava os calcanhares com mais força e prazer no lobo.
Maria tentava concentrar-se na queda de João, mas ainda rememorava em êxtase a última aventura. Seu momento predileto fora o de derramar a calda borbulhante de chocolate derretido sobre a velha senhora e assistir sua pele liquefazendo-se e misturando-se ao doce. Depois que tinham devorado toda uma parede de suspiros é que restou a dúvida do que fazer com todo o resto da casa. Só ao lembrarem de todas as crianças famintas que viviam numa aldeia ali perto é que tomaram uma atitude. Atearam fogo na casa e pacientemente esperaram cada vestígio de glicose perder-se na lama. Salvaram apenas o lobo de estimação da velha, viciado em doces, e um pirulito com o qual escravizá-lo. Amarraram o quitute na ponta de uma vara que ia à frente do animal faminto, guiando-o pela fome.
O momento, porém, exigia dos infantes maior concentração. Já avistavam de longe a chaminé da próxima parada, a todo vapor. “Bom, muito bom”, pensaram. A linha de produção estava a todo vapor, boa parte dos brinquedos já devia estar pronta. Se tudo seguisse conforme o planejado, uma das renas teria deixado a porta de um dos quartos da imensa casa aberta. Lá, a essa hora, um senhor de barbas compridas calmamente tomava seu banho anual e treinava consigo mesmo: “Hou Hou Hou”.
2 comentários:
Mais um exercício da Oficina Literária. A imagem fornecida era a de duas crianças montadas num lobo, com o menino à frente segurando uma vara com um pirulito amarrado nela, como isca pro lobo.
leitora assídua
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