segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Correnteza


Foi como num sonho que ela me ensinou a traçar meu caminho em água e ouro. Negra moça dos olhos dum azeviche doce, severo, com os quais me observava, retorquia, elogiava por vezes. Oralmente ela me ditava uns passos, comunicando-me cada movimento medido daquela dança sem sair de seu lugar. A forma, o conhecimento, todo o resto, já estariam em mim, eu sabia; ela descansava nessa certeza.


Nu ou não, não me recordo de qualquer pudor entre nós nem me afligia sua beleza simples sem adornos, só a pele luzidia e preta, a roupa branca, sua presença etérea. Eu e ela naquele quarto ou sala ou dispensa, camarinha? Onde estávamos mesmo se não contidos entre quatro paredes, o piso claro, a falta de qualquer mobília, o cheiro úmido do suor que se desprendeu de mim durante toda a noite em que aprendi a dançar com mãos, pés, ombros e alma, ora voltada pro chão, ora pra si mesma?


Ela tão menina, jovem como eu, mas naquele olhar uma centena de anos, a paciência de quem correu milênios, a autoridade inquestionável. E me falava da dona de minha cabeça, da ausência do medo, do fluxo da correnteza, eu mesmo como parte dela. Ali, apenas eu e ela, ou só eu ou nem ela.


Lembro-me que numa das mãos, à altura do regaço, ela segurava pequeno objeto de ouro, e sabia ser seu apoio, por meio dele é que se fazia corpo quase carne, matéria, pra mim. Só muito depois é que vieram me buscar, eu exausto, quando já dominava todos os passos e todo o transe.

Cobriram-me de roupas e enfeites, posicionaram-me em frente à porta e eu ofertei as mãos espalmadas pra cima, como quem se sabe no direito e obrigação. Foi quando ela sumiu e ficamos eu e Ela, eu n’Ela, Ela em mim. Depositaram o espelho em minhas mãos, abriram a porta, e todos saudaram-na:

- Ora iê iê ô!

1 comentários:

Um catador disse...

Isso foi um sonho ou a parte de um sonho muito "real".