segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Zeros


A mulher saiu para a varanda com um Martini na mão, um som portátil noutra. Ia nua, completamente nua. Ele carregava o brilho dos homens apaixonados no olhar, ali, estonteado com mais um zero que acrescentava ao resultado da famosa e perseguida equação.

Desde cedo, fora assaltado pelo raciocínio lógico e perdeu-se em curvas tão perigosas quanto atraentes. E não houve até hoje homem dedicado a fechar um zero com a mesma simetria que ele, lápis na mão, quase arte, diâmetro e curvaturas perfeitos. Foi assim, dedicado a mais um zero, que não a vira desfilar perante si.

O Nobel de física, podia senti-lo quase, aconchegado em seu travesseiro; dormiria noites com ele. Manoel perseguia-o desde a juventude brilhante. E enquanto tantos outros de sua idade saíam pra namorar, ele refugiava-se debaixo de qualquer árvore para procurá-lo. Não o Nobel. Passava horas com o caderno ao colo, olhando o céu, porque ele queria achar o infinito.

Fora o menino excepcional de sempre, gênio da matemática, preferindo, porém, a física. Sabia desde o início onde queria chegar e não mediu esforços. Passar séries à frente de seus amigos foi simples rotina, só conturbada quando se viu na difícil situação de, ainda adolescente, ter que fazer seu primeiro mestrado e não poder pular mais essa fase. Agüentara. Sua corrida atrás do infinito continuava. Cientificamente falando, ele queria apenas demonstrar o que já era de domínio público: a infinitude do espaço.

Suava em bicas noite após noite sobre seus papéis e anotações, perdera até a mania de ficar em espaço aberto. Fora-se o tempo das espinhas. Agora, trancava-se na casa de praia por dias até que, finalmente, descobriria mais alguns zeros no resultado final de sua equação.
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Ela, atriz desde o início. E todos os gestos, mínimos que fossem, a denunciavam. Não optou pelos palcos, criara-os sob os pés onde quer que pisasse e assim o conquistou. E certo dia, sem maquiagem ou luzes, vira-o, e ele, se fosse possível naquela época, a teria visto também desarmada. Desarmada estava e assim ficou, entregue, mais um resultado positivo de suas equações.

Ela, ao contrário dele, não procurava sequer o que fosse possível ao toque, contentava-se com o pouco de lançar voz em campo aberto, gesticular com força. Utilizou-se da força nos últimos anos, carregando sobre os ombros os pedaços de uma relação de desencontros. Ela refletira sobre isso hoje mesmo e lembrou-se da primeira vez em que o vira, os olhos partindo pro duelo em seguida e todo o resto disléxico teimando em não se amparar, em nunca partir prum todo.

Naquela noite, porém, quando o céu era o negro, ela resolveu ser estrela. Percebera estar em conflito, alma de artista trancafiada em si. Por isso mesmo, abandonou o roupão pós-banho e com asas de Martini, pôs-se a resplandecer. Desfilou luz em frente a ele, sem propósito até, mas não podendo deixar de notar sua completa falta de reflexão. Ela era artista e como era possível?! não havia espelhos em sua morada. Sua morada ultimamente tão sem cor, tão bem arquitetada, com poucas entradas de luz, na temperatura média.
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Só quando os números já pareciam todos iguais e que ele não mais conseguia distinguir um zero de um ó é que percebeu: precisava abrir janelas. A noite era um convite. E de bom grado é que o fez, deixando o árduo trabalho pra adiante, olhando através e lá fora a vendo nua. Algo até de sobrenatural pensaria, mas a natureza lhe falava mais alto, não ao ouvido ou à pele, mas ao cérebro. Humanos sim, naturais por que não? E resolvendo vê-la, foi até a varanda.

Não saberia nunca, porém, que se perdera ali mesmo, no caminho. No curto espaço de si a ela. Porque fora momentâneo, mas espetacular. Ela estava nua, completamente nua! E suas curvas lhe pareceram frescas. Pareceram-lhe até belas, diria simétricas, mas preferiu dizer:

- Desenhadas...

Ela nem sequer virou os olhos para vê-lo, mas se o fizesse, com toda a sensibilidade que agora retirava da noite, não o veria e talvez o susto da metamorfose a matasse ali mesmo. E seu sangue escorreria todo do olhar, do duelo que terminara em sangue anônimo e misturado. Mas balbuciou tão somente:

- Ao teatro, bem. Eu, hoje, retorno ao teatro. Hoje, sou aplausos, mas em breve, serei novamente o próprio espetáculo. - falado isso, riu. De meia boca e depois espalhou a antiga gargalhada pelo vento, depois pelo mar. E todos a não ser ela saberiam que nesse momento ela já era assistida, não como peça e sim como revelação. Ele fazia dela revelação. Seu ego se lisonjearia caso soubesse.

Morreu sem saber que fora resultado mais que objetivo; abstrato. Fora o próprio fim. E as contradições nasceram naquele olhar masculino e matemático que de objetivo e sem reflexo veio a ser abismo naquele momento. Com o leve desejo de sugar tudo em volta.

Via-a bela, bêbada até, deitada nua ao relento, com olhar de refletir o céu e posição de estrela. Pronto.

E achara-O ali, ao alcance dos dedos, no limite do olhar, parecendo dominar tudo, mas tão fácil e acessível que teve medo que o revelado lhe fugisse e escapasse. Por isso talvez a atitude precipitada. Por isso, o levantar-se de supetão, a corrida até os papéis sobre a mesa do quarto, o lápis pela primeira vez fugitivo de seus dedos e aquele final tão impensado, mas tão certeiro no cálculo do infinito. Pareceria de início mais um pequeno zero. Mas era um pequeno ponto, seguido de um outro e mais um outro. O amante dos zeros convertido à nova religião, seita inspirada nas reticências e no seu poder absoluto e relativo.

Naquela noite, no teatro, atores todos magníficos!

2 comentários:

Um catador disse...

Bem, esse é de junho de 2004, de meus 17 anos, coisa realmente antiga e nem vinha pra cá. Calhou de estar aqui devido a uma refelexão que fizeram hoje na Oficina Literária sobre pontos, uma fixação em pontos etc. Como acho que há um pequeno paralelo sobre os pontos, os zeros, a questão do infinito, enfim, essa dupla dimensão (gramatical/matemática) dos círculos, ora fechados ora abertos, postei. Dá pra viajar bastante em cima disso...

Dani Marinho disse...

Rafael, realmente eu vejo um diálogo muito forte entre as duas idéias e eu gostei muito do seu conto. Porque quando a idéia dos pontos me veio, tinha uma coisa em mente: um ponto é uma unidade quando visto de longe, mas quando você passa a observá-lo mais atentamente percebe que na verdade ele é uma infinidade de pontos. E o legal são as possíbilidades que isso nos dá para trabalhar com a linguagem, trabalho que você fez bem legal nesse conto.