segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Margaridas

O rosto dela ficou assim numa cor inominável, meio rosa pálido, lívido de medo, de raiva, de horror! Horror! A face querida tão perto de minha mão, ali no ar, o tapa que ia na cara dela. Não foi. Ficou suspenso, mas muito próximo, os dedos, as unhas feitas e pintadas ontem quase roçando sua pele, seu rosto bonito sem marcas. Eu não sei, não sei como, mas nós chegamos ali, ela derreando o queixo, os olhos aterrorizados mas ainda em desafio, essa petulante! oferecendo-me as maçãs da fronte como vítima. E eu às lágrimas, nervosa, pernas e braços em vida própria, os verbos mais rasgados ocupando o chalé alugado pra nossa reconciliação. Então, o giro do braço no ar, a mão aberta, os dedos tesos, o que em desespero, do fundo do meu rancor, eles imploravam era: me queira!

Bati com força a porta do banheiro contíguo ao quarto, que se fechou com enorme estrondo. Fiquei ainda alguns segundos recostada nela, o corpo ainda rijo, a adrenalina acelerando os batimentos do peito, meus seios num movimento dolorido por sob a blusa. Tirei-a quase rasgando pra respirar melhor. Tirei também o sutiã e vi o colo nu no espelho, suado. Corri a abrir a janelinha superior. O calor dessas horas era quase insuportável! Joguei a bermuda de lado, tirei a calcinha, encarei com fé aquela nudez. Não vai acabar! Vi-me passando as mãos nos cabelos como que em súplica, forçando-os na raiz, meus olhos já enxutos, mas ainda estranhos a mim mesma. Podia ler neles essa espécie de fulgor involuntário, brilho quente de medo, prenunciando o fim. Mas não agora, não dessa forma! Reuni forças e encarei com coragem aquele corpo refletido ainda de forma estranha, querendo ver ali o corpo dela; vi lábios num murmúrio carinhoso. "Te amo, sua estúpida".

Toda vez é a mesma coisa, um certo tom de vermelho espalhado por toda minha pele, o ardor no sangue, os bicos dos seios intumescidos delatando-me: é raiva, fúria desatinada. Mas poderia também ser o amor, como tantas vezes o era. Ela sabia a diferença. Ah, se sabia! Ficava felina com garras à mostra nuns momentos, gata em teto de zinco quente noutros, ronronando as vontades loucas. Nessas nossas zangas eu sempre corria prum banho, lembrava das águas escorrendo, do barulho que faziam ao fugir pro mar e sentia-me cúmplice delas. Deixando apenas a cabeça pra fora da banheira, todo o resto imerso, sentia o cheiro do cigarro que ela fumava no quarto, mas tentava me concentrar ali, no meu corpo n´água, nos líquidos que me habitavam em tranqüilidade.

Quase podia ouvir as vozes dos amigos. "Loucura, loucura!". Isso é loucura! ficam todos nos dizendo o tempo todo. Eu acho que isso é inveja da mais pura, coisa de quem não tem nosso nível de intensidade. Como é que ela dizia? "Ora, esse sentimento é assim mesmo, tem que vir abalando tudo, tirando o ar, o chão, quebrando umas janelas. Paixão só nos chega fazendo alarde". Falava isso sempre gargalhando e me deixava consternada. Ah, as gargalhadas de Rita, o sorriso dela. Pensar que começamos como amigas...Ou a amizade veio logo em seguida? Olho a marca da dentada dela no meu braço direito e rio. Como não rir dessas marcas insuspeitas do amor? Porque se ela não confessara até agora o amor como eu em inúmeras ocasiões, todo o meu corpo só podia servir como prova. E quem sabe hoje mesmo, nas pazes, hem? Regozijo-me com a idéia. Claro, pois dizem que essas frases vêm sempre em momentos imprevistos, e não pode haver hora mais imprevisível que depois de uma briga dessas. Mas não devo esperar. A idéia é esquecer e deixar ela me pegar de surpresa.

Vejo agora que lá sobre a pia é que ela colocou o pote de margaridas que lhe dei. Devia ter colocado no quarto, ao lado da cama, ao ar, pra não despetalarem tão rápido. Quem sabe eu mesma não despetalo uma? Era essa a mania que tinha quando criança, despetalando rosas, flores diversas, bem-me-quer, mal-me-quer. Mas as preferidas mesmo eram as margaridas. Todo mundo sabia e Clarissa é quem mais implicava. "Coitada das florzinhas. Faz isso não". Onde estaria a antiga amiga de infância agora? "Melhores amigas do universo". Implicava, mas sempre dava palpites. "Aposto que essa aí é pro Bruninho. Acertei?". Nada, nada, errou, é segredo. Eu e meus segredos de infância. Dividia quase todos com Clarissa, quase todos. Nesses dias é que olhava pra ela com mais carinho, ela preocupada com as flores, eu sempre preocupada com ela, defendendo-a de todos, tão frágil era Clarissa! Andávamos de mãos dadas pra cima e pra baixo, melhores amigas do universo, eu sentindo a mão quente dela, contando seus dedos, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer. Não me contentava de felicidade, colecionando todas suas respostas positivas: os dedos dos pés, das mãos, os dentes, tudo bem-me-quer.

Tanto querer só não resistiu à idade, nós duas sob regras, umas naturais, outras nem tanto. Os pais dela, talvez mesmo os meus, já não nos aconselhavam a andar de mãos dadas. Não a queriam mais comigo, às voltas pela cidade, nas festas, nos bares, solta na vida. Clarissa ficou a mais bonita da cidade, todos diziam, falavam de seus ares sedutores, imponentes, mas eu ainda lhe vislumbrava umas fragilidadezinhas da infância, ainda que ela se negasse agora a estar sob minha proteção. Mesmo mais tarde, já afastadas, ela me chamou pra ser dama de honra de seu casamento. Casou-se com Bruninho. Melhor: com Bruno Ferraz de Almeida. Casamento imponente, a mãe dela cuidou dos mínimos detalhes requintados e até hoje não entendia como eu pude, logo eu, sua melhor amiga. Eu entrara na igreja, passinho pequeno, vestido bonito, o arranjo de flores sem pétalas.

Eram cinco margaridas as que estavam ali sobre a pia, perto das duas escovas de dentes, um creme dental, três toalhas de banho, uma de rosto, oito persianas a tapar a janelinha, vinte e quatro persianas na janela do quarto, cujo forro é composto de noventa e sete tiras de madeira. Tudo isso eu posso lembrar de olhos fechados. Ah, mania! Começou quando mesmo? A divisão do mundo em números. Só lembro com ternura Clarissa me ensinando: "Sua boba, número ímpar sempre vai dar bem-me-quer".

Já adulta me informaram que margaridas possuíam, geralmente, 34, 55 ou 89 pétalas. Duas chances de um final feliz. Parecia haver algum tipo de lógica que nos foge. Enfim! Não racionalizar tudo, é bom lembrar. Mas desde que soube desse acaso da natureza creio que ela joga a nosso favor. Duas chances de felicidade pra cada uma de malogro!!! Arrepia-me a pele só de pensar. Enxugo-a devagar mas em fricção para passar o arrepio, os pêlos ainda em pé. Brinco com a toalha, moldo-a às minhas curvas, humm, nada mal, está tudo em pé, tudo é um convite pras mãos delas. Essas mãos com que ela fumava agora, já seria o quinto hoje?, mãos faceiras com que segurava os copos de uísque, mãos de estudante de artes cênicas, mãos inquietas. Subo com a toalha pela parte interna às pernas, friccionando a pele molhada com as mãos enérgicas, ai, ai, as mãos habilidosas de Rita.

Abrindo o armário é que me deparo com nós duas misturadas. Quais serão os cremes dela e quais os meus? Tudo assim muito junto e igual complica. Todo dia esse ritual de cremes, não à toa fico ciente de toda imperfeição no meu corpo, essa espinha nova, essa estria que aumentou ou envelheceu, céus!, preciso parar com isso, daqui a pouco nem eu me quero. Mas se não me cuido não é pior?! E as margaridas logo à frente, tão delicadas, tão perfeitas em si mesmas! Dá até vontade de. Será que devo? Mas depois de tanto tempo? Nada! Bobagens de criança. Ou não? A natureza não joga do nosso lado? Mas é que parece ser tão pequenina a esperança dessas flores. Bem, lá vou eu. Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer,... 22ª pétala, não tem muitas outras, melhor parar com essa meninice, hum? Tudo uma grande besteira! Recolho as pétalas do balcão, jogo-as ao lixo junto com o resto. Rita já deve estar agoniada de tanto esperar. Será que hoje me confessa o amor? Abri a porta recitando um mantra: duas de felicidade, uma de malogro.

2 comentários:

Um catador disse...

Bem, a proposta do blog é a de tornar públicos alguns escritos e retomar o uso do verbo, há algum tempo já calado. Assim, resolvi ir postando coisas da nova safra, mas também textos antigos, como esse. Ele data de fins de 2006, início de 2007 e foi o último conto que terminei antes de parar de escrever. Mesmo que superado, principalmente na forma, tenho por ele um carinho e acho que vale sua publicação. Ademais, isso aqui é o difícil exercício de me expôr a público, com erros e acertos. Espero que possam gostar.

Bia disse...

Primeiro, não sabia que você escrevia tão bem. É muito bom ver que a sua construção me agrada mesmo. Eu fiquei um pouco comovida com tudo, com aquela doce ilusão de que sempre haverá um momento de ouvir "eu te amo" de alguém que a gente ama, por quem a gente dedica a vida. Tenho que me lembrar que sou uma escorpiana com sete casas em água e não devo me assustar com a minha parte sentimental. heheheh. Ai, ai, ai. Não posso negar a dúvida que todos devem ter externado: você parou de escrever por que?
Muito bonito, muito mesmo!